COMO SE PODE TER UMA FÉ MAIS FORTE

O chamado para enfrentarmos o desconhecido obriga-nos a encarar de frente o plano de Deus para nossa vida.

Extraído, com permissão, de Augsburg Sermons, Augsburg Publishing House, Mpls. Minn. E.U.A. e de Loaves and Fishes, Trinity Lutheran Church, San Pedro, California, E.U.A.

12/6/20248 min read

COMO SE PODE TER UMA FÉ MAIS FORTE - Larry Christenson

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. ” (Rm 4.18-21.)
Abraão não enfraqueceu na fé. Por que será? Quantas vezes a minha fé enfraquece...
Abraão se fortaleceu na fé. Como se deu isso? Eu gostaria de ter uma fé mais forte...
Ele se fortaleceu na fé, quando passou por duas provas de importância fundamental: a prova do desconhecido e a do desânimo. A fé se torna mais forte quando compreende, aceita e passa por essas duas provas.

A PROVA DO DESCONHECIDO
“Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia. “ (Hb 11.8.) Deus prova a nossa fé com o desconhecido, para que aprendamos a obedecer a sua Palavra.
A fé fraca exige todo tipo provas de que aquilo que estamos para fazer dará certo. Talvez saibamos que Deus quer que façamos determinada coisa. Mas analisamos tudo para ver se... bom, para ver se realmente aquilo dará certo. Afinal, o que as outras pessoas irão pensar? E as circunstâncias, são todas favoráveis? E se acontecer isso ou aquilo?
Quando nossa fé obedece à palavra de Deus em vista do desconhecido, libertamo-nos, deixando de depender dos sistemas de apoio deste mundo.

O chamado para enfrentarmos o desconhecido obriga-nos a encarar de frente o plano de Deus para nossa vida.

Deus tinha um plano que desejava executar por intermédio de Abraão. Com ele, o Senhor queria dar início a um povo que cresse nele e lhe obedecesse. Então, levou-o a afastar-se da idolatria dos caldeus, pois esta ficaria constantemente tentando-o a desviar-se de Deus. Levou-o a afastar-se de parentes e amigos, cujo modo de vida poderia minar o propósito de Deus para a família que nasceria de Abraão. Chamou-o para ir a uma terra onde o Senhor, pela sua vontade soberana, resolvera executar seus planos com relação ao seu povo escolhido.
O chamado de Deus não precisa ser necessariamente um fato dramático. Pode ser algo relacionado com a posição da pessoa na vida. Toda pessoa casada é chamada a ser marido ou esposa. As crianças em idade escolar são chamadas para serem estudantes. Um proprietário de uma companhia é chamado a ser um empregador.
Em qualquer uma dessas situações comuns da vida, Deus pode chamar-nos ao desconhecido. Isso não quer dizer necessariamente que iremos pegar nossas coisas e mudar-nos dali. Pelo contrário, ele pode chamar-nos a permanecer no mesmo lugar, e aceitar as incertezas da situação em que nos encontramos. Certa senhora estava consultando um conselheiro matrimonial havia três meses, quando ele a aconselhou a pedir o divórcio.
— Seu marido não tem jeito mesmo. É melhor a senhora começar a pensar em viver sem ele, só com suas duas filhas.
E alguns amigos lhe deram o mesmo conselho. Mas um dia recebeu a visita de sua mãe.
— Você fez um voto, disse ela com desacostumada firmeza. E não pense que a culpa é toda do seu marido. Existem coisas em você que precisariam ser modificadas também.
Essas palavras constituíam um chamado ao desconhecido, tão real e difícil, como uma ordem para pegar suas coisas e mudar-se para outro país. Diante deste chamado, ela perguntou a si mesma:
— Será esta palavra de minha mãe a ordem de Deus para mim? (Muitas vezes Deus nos fala por meio do conselho de terceiros.) Será que devo abandonar a ideia de divórcio, sabendo que nosso casamento se acha tão abalado?
Passados vários anos — e várias batalhas de fé — ela comentou o seguinte:
"Quando desisti de pedir o divórcio, reconheci que precisaria de Deus como nunca havia precisado antes, pois humanamente falando, a situação era impossível de suportar. Creio foi a primeira vez que ter fé em Deus se tornou uma necessidade prática da vida diária."

O chamado para o desconhecido obriga-nos a viver com incertezas.
Quando Deus nos chama para o desconhecido não se trata absolutamente de um exercício de guerra simulado. Significa realmente viver com uma certa insegurança. E pode implicar em mudanças fundamentais em nossa maneira de viver.
Certo empresário confidenciou o seguinte a um amigo: "Se eu fizesse a minha declaração de renda e de bens rigorosamente correta, poderia até vir a falir. É uma loucura! Apertado entre a concorrência e o governo, a gente é praticamente obrigado a adulterar os dados, se quiser continuar ativo." Mas depois, este homem aceitou seriamente as exigências de Deus para sua vida. E começou a achar cada vez mais difícil viver nas sombras da hipocrisia moral. Mas também não era fácil libertar-se disso totalmente, pois implicava em ter de encarar a possibilidade de perder seu negócio.

O chamado para o desconhecido obriga-nos a depender apenas de Deus.
O chamado para o desconhecido coloca diante de nós o seguinte desafio: "Estamos dispostos a romper com todo tipo de sistema de sustento de que estamos dependendo no momento, e passarmos a depender totalmente de Deus?"
Estudantes de segundo grau e universitários: vocês estão dispostos a abandonar a "Terra do Conformismo"? A desistir da dependência em que se acham com relação à aprovação de seus colegas? Se Deus o chamar para viver segundo um código de moral diferente, com mais recato no vestir, no falar e na conduta, com outro padrão de honestidade em seus trabalhos escolares, outra integridade em seus relacionamentos pessoais, vocês estariam dispostos a ser... diferentes?
Membros de igreja poderia libertar-se do cativeiro de um individualismo superprivado? Seus ouvidos estão abertos a um chamado de Deus que poderia colocá-los numa posição de maior interdependência com os outros membros do grupo? Vocês se reúnem aos domingos pela manhã, e talvez uma ou duas noites por semana. Mas depois retiram-se para suas quatro paredes, e passam a ter vidas totalmente individuais. O Corpo de Cristo não pode ser edificado com articulações tão débeis. Se Deus os chamar a se dedicarem uns aos outros de modo mais profundo, a se responsabilizarem uns pelos outros, a confortarem, exortarem e corrigirem uns aos outros, a abandonarem tudo que entrava a comunhão uns com os outros, e a se colocarem à disposição uns dos outros, não de acordo com suas próprias conveniências, mas segundo as necessidades do Corpo de Cristo, será que estão dispostos a abandonar seu estilo de vida?
Qual o "desconhecido" que Deus colocou diante de cada um para fazer um desafio à sua fé? Que sistema de apoio está pedindo que abandonem?
Deus nos chama da mesma forma que chamou Abraão — para o desconhecido. Ali nossa fé é provada. Ali a fé abandona a "terra dos prazeres". Ali ela dá um passo de obediência cega à palavra ordenada por Deus. Ali a fé se fortalece.

A PROVA DO DESÂNIMO
"E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou da promessa de Deus."
A fé fraca não tem muita vontade de persistir crendo. Ela se regozija prontamente com uma promessa, mas desanima quando seu cumprimento é retardado. Aí o bom senso toma o lugar da fé. Talvez tenhamos entendido mal. Ou talvez, aquilo teve um sentido puramente espiritual. O espaço que separa nossa experiência de nossa expectativa de fé é por demais doloroso. Então rebaixamos nossa expectativa.
Quando a fé confia na promessa de Deus, em face do desânimo, somos impelidos a aprofundar-nos ainda mais na força e na graça de Deus.

O desânimo nos obriga a voltar à promessa.
Nas várias vezes em que o desânimo pareceu pesar sobre Abraão, Deus chamou sua atenção para a promessa original, e reafirmou sua aliança com ele. (Ver Gênesis 15.1-6; 17.1-19; 22.15-18.) Os momentos de desânimo são ocasiões para corajosas rememorações.
Deus nos apresenta promessas em muitas situações da vida. Inevitavelmente essas promessas têm que passar pela prova do desânimo. Elas nunca chegarão à plena maturação, se não forem provadas.
Será que levamos mesmo a sério as promessas que Deus tem para nossa vida? Quantos maridos e esposas, sentindo que seu relacionamento está mergulhando no desânimo, voltam à promessa que Deus fez para o seu casamento: "Serão ambos uma só carne"? Quantos de nós iniciam um serviço cristão em sua comunidade, confiando na orientação e na bênção de Deus, mas depois sucumbem ao desânimo, ao perceberem que o serviço está sofrendo oposição ou que seus esforços não estão sendo notados?

O desânimo nos obriga a reconhecer nossas próprias fraquezas.
Abraão analisou a situação com objetividade. Ele estava com quase cem anos, e sua esposa, Sara, com mais de noventa. Deus lhes prometera um filho, mas ter um filho na idade deles contrariava toda a experiência humana. Nada poderia causar a realização dessa promessa, a não ser uma interferência divina.
E o desânimo nos coloca nesta condição — uma condição de total incapacidade, onde reconhecemos que somente Deus é nossa esperança.
Muitos pais têm chegado a este ponto, no que diz respeito à criação dos filhos.
"Quando eles são pequeninos — disse-me certa vez um amigo — podemos dirigir muito bem sua vida e suas atividades. Mas depois, quando ficam mais velhos, só podemos sustentá-los nos braços cansados da oração."
E Deus tem promessas maravilhosas para pais e filhos. "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele." (Pv 22.6.) Mas essa promessa não pode ser cumprida a menos que passemos pela prova do desânimo.
O desânimo provoca o fim das possibilidades humanas, pois sentimos nossa própria impotência para resolver os problemas, e percebemos a necessidade que temos de Deus.

O desânimo nos leva a uma comunhão ainda mais íntima com Cristo.
"Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas..." (Hb 5.7.) No Getsêmani, ele derramou sua alma diante de Deus em agonia de suor e sangue. Entretanto, apesar de todo o seu sofrimento, o apoio a que ele mais se apegou, acima de tudo, foi a vontade do Pai. Depois de haver falhado todo o consolo humano, quando o desânimo o pressionou ao ponto máximo da angústia, ele compreendeu que o único apoio do qual poderia depender totalmente era seu relacionamento com o Pai.
Deus permite que o desamino nos prove, para que conheçamos a verdadeira natureza da fé, e saibamos que ela pode crescer. A fé não é uma mera aceitação mental a certas verdades. Martinho Lutero reconheceu a verdadeira natureza da fé, quando escreveu o seguinte: "A fé é uma confiança segura do coração, e uma firme aceitação, pelas quais tomamos posse de Cristo. De modo que Cristo é o objeto de nossa fé, ou antes, ele não é o objeto, mas, por assim dizer, ele está contido nesta fé"
Certa vez, minha esposa passou por uma crise de desânimo, e suas orações se reduziram a uma única petição: "Toma minha mão, ó Pai, e guia-me tu." O desânimo retira da fé todos os acessórios, e ficamos amparados apenas pela realidade de Deus. É como uma poda. Tudo o que é supérfluo é cortado, ficando apenas o tronco central, onde a vida está armazenada. Depois surge dali uma vida mais bela e mais forte.
Talvez você se pergunte por que tem enfrentado tantas incertezas, e por que Deus parece chamá-lo para enfrentar o desconhecido. Agora já sabe que ele tem um propósito certo. Ele o está ensinando a obedecer a sua Palavra. E essa Palavra sempre nos conduz a Cristo.
Você encarou de frente o seu desânimo. E como fez o próprio Jesus, talvez tenha clamado a Deus. Agora já sabe que, por meio do desânimo, Deus o está ensinando a confiar em sua promessa. E o âmago de sua promessa é sempre Cristo.

Uma fé forte não é privilégio de um punhado de super santos. Você pode ter uma fé forte, porque tem um Cristo que é forte.
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Extraído, com permissão, de Augsburg Sermons, Augsburg Publishing House, Mpls. Minn. E.U.A. e de Loaves and Fishes, Trinity Lutheran Church, San Pedro, California, E.U.A.